Andar ponta dos pés: pode ser autismo?
Olá, para você que chegou até aqui, acredito que tenha procurado na internet: “Meu filho está andando na ponta dos pés, ele pode ser autista?”
Bem, vamos lá, meu desejo é que você tenha informações científicas e que assim possa decidir como irá proceder nesse momento.
Quero te contar que caminhar na ponta dos pés torna-se sério quando persiste para além dos 3 anos de idade, quando você nota que é observado em uma perna só ou a característica da marcha é assimétrica, ou seja, levanta mais um lado do que o outro, ou está associado a outras características que tem te preocupado, como atrasos nos marcos motores, história de nascimento anormal, presença de alterações observadas no exame neurológico realizado pelo pediatra ou clínico que tenha habilidade com crianças, assim como também tenha observado problemas comportamentais no seu filho.
Embora caminhar na ponta dos pés seja uma variante normal em crianças até os 3 anos de idade, a persistência além dessa idade justifica avaliação para excluir alguma patologia. Outras condições para além do autismo estão paralisia cerebral previamente não diagnosticada, neuropatia periférica, paraparesia espástica hereditária e anormalidades da medula espinhal.
Andar na ponta dos pés na infância: quando é fase normal do desenvolvimento
Então, o comportamento de andar ponta dos pés é relativamente comum nos primeiros anos de vida da criança. Muitos pequenos experimentam diferentes formas de andar. Isso faz parte da exploração motora natural. O corpo está aprendendo equilíbrio e coordenação. Nem sempre esse padrão indica um problema.
Em muitos casos, é apenas uma fase passageira. Durante o desenvolvimento, a criança testa movimentos variados. Ela pode alternar entre andar com o pé completo e na ponta dos pés. Porém, esse comportamento tende a diminuir com o tempo. A maturidade motora contribui para um padrão mais estável. Assim, observar a frequência é essencial. Episódios ocasionais costumam ser normais. Em outras palavras, o andar ponta dos pés não deve ser analisado isoladamente. A criança apresenta bom equilíbrio e coordenação geral? Ela interage normalmente com o ambiente? Essas respostas ajudam a entender o contexto. Contudo, a persistência desse padrão merece atenção.
Existem crianças que têm marcha em ponta de pés que denominamos idiopático e olha só que interessante, a evolução é favorável e estima-se que aproximadamente 5% das crianças de 5,5 anos de idade tinham histórico de caminhar na ponta dos pés, mas 79% resolveram espontaneamente até os 10 anos de idade sem intervenção ou desenvolvimento de contraturas no tornozelo. A prevalência de caminhar na ponta dos pés persistente aos 5,5 anos de idade é de 2% em crianças em desenvolvimento típico, ou seja, dentro do esperado, mas sobe para 41% em crianças com diagnósticos neuropsiquiátricos ou atrasos de desenvolvimento.
Marcha na ponta dos pés: quando investigar e buscar avaliação especializada
É importante dizer que contraturas de equino no tornozelo isoladamente não distinguem entre caminhar na ponta dos pés idiopático e patológico, pois contraturas podem ocorrer em ambos os grupos de crianças e pode demandar de tratamento com fisiatra e ortopedista infantil. Crianças que continuam caminhando na ponta dos pés além dos 10 anos de idade têm maior probabilidade de apresentar comorbidades neurodesenvolvimentais.
Está com dúvida? Marque uma consulta especializada, a avaliação de uma criança com marcha persistente nas pontas dos pés requer história detalhada, exame físico completo e possíveis testes diagnósticos para diferenciar marcha idiopática nas pontas dos pés de etiologias neurológicas subjacentes.
Referências
- ENGSTRÖM, P.; TEDROFF, K. Idiopathic toe-walking: prevalence and natural history from birth to ten years of age. The Journal of Bone and Joint Surgery. American Volume, 2018.
- HAYNES, K. B.; WIMBERLY, R. L.; VANPELT, J. M. et al. Toe walking: a neurological perspective after referral from pediatric orthopaedic surgeons. Journal of Pediatric Orthopedics, 2018.
- O'SULLIVAN, R.; MUNIR, K.; KEATING, L. Idiopathic toe walking - a follow-up survey of gait analysis assessment. Gait & Posture, 2019.
- RUZBARSKY, J. J.; SCHER, D.; DODWELL, E. Toe walking: causes, epidemiology, assessment, and treatment. Current Opinion in Pediatrics, 2016.