Dor de cabeça em crianças: quando é comum e quando exige atenção imediata

Socorro, sou chamada na escola por conta desse menino com dor de cabeça! Essa é uma fala comum aqui no consultório. A dor de cabeça em crianças é comum e, na maioria das vezes, não indica uma doença grave, mas pode ser muito chata, debilitante e que prejudica o dia a dia da criança.

Ainda assim, alguns sinais precisam chamar a atenção dos pais, porque podem sugerir causas secundárias importantes, como tumores cerebrais, infecções do sistema nervoso central, hemorragia intracraniana, hidrocefalia e outras condições que exigem avaliação urgente. Felizmente, menos de 3% das crianças com dor de cabeça têm doenças neurológicas graves. Eu tenho sim, casos de crianças que abriram o quadro com dor de cabeça e foi necessária a investigação e conduta imediata.

Para que não criemos mais pânico, o mais importante é entender que não basta olhar para a dor isoladamente: é a combinação de sintomas, o exame clínico e a evolução do quadro que ajudam a diferenciar o que é benigno do que precisa de investigação imediata.

Sinais que merecem atenção urgente

Mas Dra, quais são os sinais de alerta que merecem atenção urgente?

Alguns sinais são especialmente importantes porque aumentam a chance de uma causa mais séria. O principal deles é o exame neurológico anormal, que é o preditor mais forte de doença intracraniana grave. Isso inclui:

  • fraqueza ou perda de força em alguma parte do corpo
  • alteração do nível de consciência
  • papiledema (exame alterado na avaliação do fundo de olho)
  • paralisia de nervos cranianos
  • sinais cerebelares, como desequilíbrio e coordenação ruim

Outros sinais de alerta incluem:

  • dor de cabeça súbita ou muito intensa, especialmente se começou recentemente
  • vômitos
  • dor que acorda a criança do sono
  • dor progressiva ou com mudança no padrão habitual
  • dor desencadeada por exercício ou manobra de Valsalva, como tossir, fazer força ou evacuar
  • convulsões
  • ataxia ou alterações da marcha
  • sintomas visuais ou alterações oculares
  • febre
  • dor em criança imunocomprometida
  • dor em região occipital
  • ausência de história familiar de enxaqueca

A idade menor que 6 anos também é um ponto de atenção, embora esse critério, isoladamente, tenha sido questionado em estudos mais recentes.

Como é a enxaqueca em crianças?

A enxaqueca pediátrica nem sempre segue o padrão clássico do adulto. Em geral, o diagnóstico exige pelo menos 5 episódios, com duração de 2 a 72 horas, e pelo menos 2 destas características:

  • dor pulsátil
  • dor unilateral
  • piora com atividade física ou limitação da atividade
  • intensidade moderada a grave

Além disso, costuma haver pelo menos um sintoma associado, como:

  • náusea
  • vômito
  • fotofobia
  • fonofobia

Em crianças, a enxaqueca pode ter características diferentes:

  • os ataques costumam durar menos tempo
  • a dor é frequentemente bilateral
  • náuseas e vômitos são mais comuns
  • podem ocorrer dor abdominal e vertigem
  • a presença de história familiar de enxaqueca ajuda muito no diagnóstico
  • em crianças maiores e adolescentes, a aura pode aparecer antes da dor

Também há diferenças por idade: em crianças menores, meninos e meninas costumam ser afetados de forma semelhante; já após os 12 anos, há predominância feminina.

Como é a cefaleia do tipo tensional?

A cefaleia tensional é muito comum e também benigna. Ela costuma ser reconhecida mais pela ausência das características de enxaqueca do que por sinais específicos.

Em geral, apresenta:

  • dor bilateral
  • sensação de pressão ou aperto
  • intensidade leve a moderada
  • não piora com atividade física
  • não vem com náusea ou vômito
  • pode haver fotofobia ou fonofobia, mas não ambas

Costuma durar cerca de 2 horas e pode ocorrer algumas vezes por mês. Fatores como estresse, problemas familiares e sintomas depressivos podem contribuir.

Por que o diagnóstico pode ser difícil

Diferenciar enxaqueca de cefaleia tensional em crianças nem sempre é fácil. Muitos sintomas se sobrepõem, e crianças pequenas podem não conseguir descrever bem o que sentem. Por isso, a observação dos pais é fundamental.

O que os pais devem observar?

Se seu filho tem dor de cabeça, vale prestar atenção em alguns pontos:

  • quando a dor começou
  • quanto tempo dura
  • se acorda a criança à noite
  • se vem com vômitos ou febre
  • se há alteração no caminhar ou no equilíbrio
  • se a dor muda de padrão ao longo do tempo
  • se existe sensibilidade à luz, som ou cheiro
  • se há história familiar de enxaqueca
  • se a criança consegue continuar suas atividades ou precisa parar tudo

Na infância, a maioria das dores de cabeça é benigna, mas os pais devem saber reconhecer os sinais de alerta. O exame neurológico, a presença de vômitos, a intensidade da dor, a mudança no padrão e sintomas como convulsões, alteração da marcha ou alterações visuais são pistas importantes para decidir se a criança precisa de investigação imediata. Em caso de dúvida, o melhor caminho é sempre procurar avaliação médica. Nessa queixa de dor de cabeça, me deparo com pais ou desesperados demais ou chateados com os filhos porque acham que estão com manha ou não querem ir para a escola. O neurologista da infância é o melhor profissional para te ajudar a resolver essa queixa. 

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